Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

FERNANDO RAMOS

Minha Poesia

FERNANDO RAMOS

Minha Poesia

643 - UM TRISTE FADO – COROA DE SONETOS

Fernando Ramos, 10.06.22
  • 643 - 1 E 2.jpg

       

    643 - 3 e 4.jpg

  •   

    643 5 e 6.jpg

     

    643 - 7 e 8.jpg

    643 - 9 e 10 (1).jpg

    643 - 11 e 12 (1).jpg

    643 - 13 e 14 ultimo (1).jpg


     UM TRISTE FADO – COROA DE SONETOS

  •  1
  • Numa velha tasquinha de Lisboa
    Corações magoados choram saudade
    Um fadista rebelde de voz boa
    Canta um fado de muita ansiedade
  •   
  • É  uma tristeza dorida
    Numa história, simples e singela
    Cantada na casa castiça e colorida
    Por uma garganta rouca e bela
  •   
  • Aconteceu ali ao lado, na viela
    Um crime que está a ser muito falado
    Mataram o guitarrista João Catela

    O povo não se conforma
    Anda de coração chorado
    E acham a justiça um pró-forma
  •   
  • 2
    Acham a justiça um pró-forma
    Querem-na fazer com suas mãos
    Não podem aguardar p’la norma
    Do tribunal julgar o malandrão
  •  
  • Não sabem bem o que se passou
  • Fala-se de um marido enganado
    Que uma pistola bem manejou
    Caindo na viela, o João baleado
  •   
  • No bairro, aquele crime é bizarro
    A população vive em sobressalto
    O fadista vai fumando seu cigarro
  •  
  • Ouvindo o povo comentar
    Que próximo já houve um assalto
    E o medo já começou a chegar
  •  
  • 3
    E o medo já começou a chegar
    Pensa o mui nobre fadista
    A tasca depressa se vai esvaziar
    Terminando a noite p’ro artista

    Todos regressam à sua casinha
    Trocando segredinhos do acontecido
    Fala-se que foi por causa da Aninha 
    Que Catela, ali perto tenha morrido
  •   
  • Diziam que boa moça era Aninha!
    Casada com o Zé Marinheiro
    Mas com o João,  já a viu uma vizinha
  •   
  • Não imaginando o crime cometido 
  • Até que o defunto não era “arruaceiro”
    Era bom homem, trabalhador e amigo
  •   
  • 4
    Era bom homem, trabalhador e amigo
    Mas foi o ciúme a causa daquela desgraça
    Amou quem não devia, estava perdido
    P’ro coração do Zé, era uma ameaça
  •   
  • O povo agora não fala de mais nada 
    Senão da Ana, do Zé e do João
    É uma desgraça acontecida p’la calada 
    Sofrendo a população pela traição
  •  
  • Lá no bairro são todos muito amigos
    Até Marcham nos Stos. Populares 
    Agora sentem-se tristes e perdidos
  •   
  • E por causa do crime que é o primeiro 
  • O povo regressa cedo aos lares
  • Com medo do que fez Zé Marinheiro
  •  
  • 5
    Com medo do que fez  Zé marinheiro
    Perdeu a cabeça num acto tresloucado
    Arrependido está o amigo e companheiro
    Era tão bom marujo, e cometeu vil pecado
  •   
  • O Zé, por mares muito navegava
    Deixando no cais  Aninha triste e só
    Ela, que nas partidas muito chorava
    Cometeu a traição, sem pena nem dó
  •   
  • Por ele, mais lágrimas não vai deitar
    Zé, vai p’ra cela suja sem saída
    Por alguns anos o vão encarcerar
  •  
  • Triste, este destino que aconteceu
    Aninha ficará na mágoa bem sofrida
    E o pobre do João por amor morreu
  •  
  • 6
    E o pobre do João por amor morreu
    Um guitarrista de poemas talhados 
    O povo está triste p’lo que aconteceu
    Tocava tão bem na casa de fados
  •  
  • Era um homem bonito e todo gingão
    Diz a vizinhança, que por ele suspirava
    Zé, era traído sem dor no coração
    Por Aninha, que com João se deitava
  •  
  • Este artista de tão grave pecado
    Nas guitarras já pouco tocará
    Mas não fica órfão do seu amigo fado
  •  
  • Irá continuar nesta cidade castiça
    Onde a paz ao bairro voltará 
    Quando p’lo João se fizer justiça
  •  
  • 7
    Quando p’lo João se fizer justiça
    Já o Zé cumpre pena no degredo
    Aninha, terá outro homem que a cobiça
    Não é mulher de andar só, e com medo
  •  
  • Das ruas da amargura foi resgatada
    P’lo seu marido Zé Marinheiro
    Era prostituta da rua mal frequentada 
    Por mulheres que amavam por dinheiro
  •  
  • Aninha, na vida tem um mau passado
    Seu homem bom, da lá, a tirou
    E como gratidão, com o João  atraiçoou
  •  
  • É um pecado que não vai ser perdoado
    P’los vizinhos, que dele muito fala
    Causando a dor que o povo não cala
  •  
  • 8
    Causando a dor que o povo não cala
    E que os poetas está a inspirar
    Dará poesia que se cantará numa sala
    Em fados que fará o coração sangrar
  •  
  • Guitarras chorarão baixinho
    Poemas de sangue e dor
    P’ra um fadista que cantará certinho
    O triste destino traído por amor
  •  
  • Ela voltou p’ra tristeza traçada
    E na rua procura outra oportunidade
    Que decerto não lhe será ofertada
  •  
  • Por outro homem que a poderia amar
    Aninha, sente-se só nesta cidade
    E no rosto, não há lágrimas a deslizar
  •   
  • 9
    E no rosto, não há lágrimas a deslizar
    Os remorsos a estão a consumir
    No bairro conhecem seu pecar
    E de lá, querem-na ver partir
  •  
  • Aninha, vive nas ruas da amargura
    Suplica ao vento p’ra levar seu inverno
    O tempo que lhe perdoe a grande loucura
    Senão, jamais esquecerá seu pecado eterno
  •  
  • Agora, nas acordadas madrugadas
    Assaltam-lhe pensamentos do Diabo
    Cobrando-lhe suas dores desbragadas
  •  
  • P’ra seu mundo de inferno permanente
    Já escrito em poesia para um fado
    Cantado p’lo fadista, pausadamente
  •  
  • 10
    Cantado p’lo fadista, pausadamente
    No silêncio das noites de bom tino
    Este drama triste e pungente
    Apenas seguiu por mau destino
  •  
  • Nos três amigos, suas vidas se alterou 
    Um morreu, outro já está preso
    E outra, sua vida p’ra trás voltou
    Recebendo a paga de total desprezo
  •  
  • Por toda população local
    Que jamais esquece o sucedido
    Numa atitude correcta e natural
  •  
  • Condenando tal acto vivido
    Onde o futuro do amigo foi perdido
    Porque o João, por eles era querido
  •  
  • 11
    Porque o João, por eles era querido
    Sendo na guitarra um virtuoso
    Acompanhava fadistas, agradecido
    De modo sempre afectuoso
  •  
  • Até que o ciúme lhe apareceu
    Dando lhe um fim triste e brutal
    Como uma vertigem de breu
    Surge a visão terrível e infernal
  •  
  • Agora gemem as guitarras
    Em outras mãos generosas
    Dedilhando poesia sem amarras
  •  
  • Desta tristeza, de dor, e morte
    Chorada por pessoas carinhosas
    Com rancor desta má sorte
  •   
  • 12
    Com rancor desta má sorte
    Acontecida na viela ao lado
    Onde a dor ali bateu forte
    Nos corações dum povo desolado
  •  
  • Trovas se começam a escrever
    P’los poetas que as estão aprimorar
    Em rimas exuberantes de saber
    Acontecendo poesia de acicatar
  •  
  • P’ra tantos que se vão deslumbrar
    Pela escrita que traz tanto sofrer
    Muitos, dela se vão sempre lembrar
  •  
  • Que o ciúme só traz desgraça
    A vidas que se podem perder 
    Neste mundo fértil de devassa
  •  
  • 13
    Neste mundo fértil de devassa
    Onde de boca, em boca voa a miséria
    De acontecimentos que ultrapassa
    O bom senso, de forma vil e pouco séria
  •  
  • Hoje já se cantam poemas de dor
    Nas mais afamadas tabernas finas
    Em vozes generosas de ardor
    Cantados em fados de tristes sinas
  •  
  • Como o poema dos três amigos
    Cujo o crime os maltratou
    Hoje, do futuro se encontram perdidos
  •  
  • A Ana, que era tratada por Aninha
    À rua da má vida ela voltou
    Perdendo aí a sua boa estrelinha
  •  
  • 14
    Perdendo aí, a sua boa estrelinha
    Como castigo da muita má sorte
    Cumprindo esta pena p’la tardinha
    Num ritual que a vai levar à morte
  •  
  • E o fadista rebelde, de voz rouca
    Canta p’ra clientes sensibilizados
    O ciúme que deixou a vida louca
    A três amigos outrora respeitados
  •  
  • Apenas agora resta a saudade
    Naquele bairro de bom viver
    De gentes que ama a sua cidade
  •  
  • Como um poema que bem soa 
    Na voz do fadista de bem o dizer
    Na tasquinha dum bairro de Lisboa
  •  
  • De: Fernando Ramos